Em agosto de 2026 foi publicado na revista Aesthetic Plastic Surgery um artigo que escrevi em coautoria com colegas de diferentes países: "Safe and Integrated Practices in Rhinoplasty: A Contemporary Perspective on Function, Aesthetics, and Patient Safety".
Como o texto original é técnico e está em inglês, reuni aqui um resumo em linguagem acessível — porque o assunto central interessa diretamente a quem está avaliando operar o nariz: o que, de fato, torna uma rinoplastia mais segura.
O que o trabalho analisou
Revisamos a literatura publicada entre 2019 e 2025 — incluindo revisões sistemáticas, metanálises e documentos oficiais da ISAPS — sobre abordagens funcionais, estruturais e de preservação. Foram analisados estudos das três fases do processo: pré-operatório, intraoperatório e pós-operatório.
O trabalho foi desenvolvido em coautoria, a partir das discussões do Patient Safety Committee (Comitê de Segurança do Paciente) da ISAPS.
O que encontramos
A cirurgia mudou de direção
Há uma mudança global: as técnicas redutivas — que removiam estrutura para diminuir o nariz — vêm cedendo lugar a abordagens estruturais e de preservação, que priorizam o respeito à anatomia e a integridade funcional. Em outras palavras, deixou-se de tratar o nariz como algo a ser reduzido e passou-se a tratá-lo como uma estrutura a ser preservada e reorganizada.
O que reduz complicações não é só a técnica
A evidência sustenta três elementos ao longo de todo o percurso cirúrgico: planejamento em equipe, avaliação psicológica e protocolos padronizados aplicados antes, durante e depois da cirurgia. São fatores de processo, não de técnica — e é aí que está boa parte da margem de segurança.
A tecnologia ajudou, mas não resolve sozinha
Avanços tecnológicos melhoraram a previsibilidade dos resultados e a formação de novos cirurgiões. Ainda assim, permanece uma variabilidade importante entre técnicas e protocolos adotados mundo afora.
A conclusão principal
É o ponto que considero mais relevante para quem está pesquisando sobre a cirurgia: o caminho para reduzir complicações passa por padronizar o percurso do paciente — fluxos perioperatórios, documentação estruturada e avaliação de resultados com instrumentos validados — e não por padronizar a técnica cirúrgica.
A razão é simples: cada nariz tem uma anatomia, e a técnica precisa responder a ela. O que pode e deve ser igual para todos é o rigor do processo em volta da cirurgia.
O artigo também sustenta que uma cultura de segurança não se constrói só com protocolos. Ela exige empatia, colaboração entre as equipes e o papel ativo do cirurgião como mediador técnico e ético em todas as etapas do cuidado.
O que este artigo não é
Esse esclarecimento é parte do próprio texto publicado, e faço questão de repeti-lo aqui:
- Não é uma diretriz oficial da ISAPS. É uma reflexão crítica sobre a evidência atual e sobre as discussões do Patient Safety Committee.
- Tem nível de evidência V. A revista classifica cada artigo em uma escala de evidência, e o nível V corresponde a revisão e opinião de especialistas — não a um ensaio clínico. Isso não diminui o trabalho, mas define com honestidade o peso que ele tem.
- Não estabelece regra de conduta para outros cirurgiões. É uma contribuição ao debate, não uma norma.
Referência e leitura completa
Capuchinho-Júnior GA, Cervantes A, Nikoumaram B, Robotti E, Hesamirostami M, Çerkes N, Poignonec S. Safe and Integrated Practices in Rhinoplasty: A Contemporary Perspective on Function, Aesthetics, and Patient Safety. Aesthetic Plastic Surgery, 2026. DOI: 10.1007/s00266-026-06193-4.
Ler o artigo completo (link de leitura disponibilizado pela editora) · Página da publicação no Springer
Congresso Mundial da ISAPS 2026
Pela terceira vez participarei como Invited Faculty do Congresso Mundial da ISAPS, que acontece em Cancún — pré-congresso em 27 de outubro e programa principal de 28 a 31 de outubro de 2026. Lá apresentarei este trabalho e discutirei o tema com colegas de diferentes países.
Agradeço aos coautores e à organização pela oportunidade de levar essa discussão para fora do consultório.